O Pronto Socorro de Aracaju Antonio Samarone de Santana Academia Sergipana de Medicina Durante o Governo de Oliveira Valadão (1914 - 1918) ocorrem duas importantes mudanças na Repartição de Higiene. Primeiro, a sua transformação, em 30 de dezembro de 1915, de Inspetoria em “Diretoria de Higiene e Saúde Pública”, pelo decreto nº[i] 618, e a devida aprovação de um novo regulamento[ii]. Segundo, a transferência, em 21 de maio de 1916, dos “Serviços de Assistência Pública” (atuais Prontos Socorros) do âmbito da Diretoria de Segurança para a Diretoria de Higiene e Saúde Pública. O novo serviço de Assistência Pública teve sua regulamentação aprovada pelo decreto nº 645, de 11/01/1917. Na verdade, o Serviço de Assistência Pública era um similar dos atuais Prontos Socorros, que, por razões hoje incompreendidas, estava a cargo do Setor Policial, inclusive, era a única repartição que possuía uma ambulância para o transporte de doentes. De acordo com o novo regulamento, competia à Assistência Pública: a) prestar socorros médicos e cirúrgicos de urgência nas vias públicas, em todos os casos de ferimentos, asfixia, envenenamento ou estados mórbidos súbitos; b) prestar socorros médicos e cirúrgicos aos doentes da população pobre, inclusive às parturientes e aos loucos, remetendo-os para os hospitais, maternidades ou asilos, quando não se possa tratar em domicilio; c) promover o enterramento dos indigentes depois da verificação do respectivo óbito. O Regulamento previa a cobrança dos serviços de quem pudesse pagá-los. Na estruturação do novo serviço de assistência, o Governo Valadão criou em janeiro de 1917, o “Posto de Assistência Pública”, que, embora subordinado à Diretoria de Higiene e Saúde Pública, possuía direção e pessoal próprios. Para o Cargo de Diretor da Assistência foi nomeado o prestigiado médico Dr. Francisco de Barros Pimentel, que permanecerá no cargo até seu falecimento, quando então será substituído, em 30 de abril de 1922, pelo Dr. José Thomaz de Ávila Nabuco. O Posto de Assistência Pública, criado quando a Diretoria de Higiene e Saúde Pública era dirigida pelo Dr. Octaviano Vieira de Melo, funcionou inicialmente na Rua Araçá, situada nos fundos do Palácio Serigy. Essa rua desapareceu com os aterramentos do Morro do Bonfim. No seu primeiro ano de funcionamento, o Serviço de Assistência Pública adquiriu uma ambulância para o transporte dos doentes e um carro funerário (rabecão), ambas puxados a cavalos. O serviço de transporte de doentes da Assistência Pública passou a ter tanta importância nas décadas seguintes em Sergipe, que até bem pouco tempo, a população ainda chamava ambulância de “assistência”, confundindo o veículo para o transporte com a repartição. A Assistência Pública atendeu de janeiro a agosto de 1918, os seguintes casos: 60 pessoas socorridas nas vias públicas, 166 pessoas transportadas para o hospital, 33 curativos, 59 receitas, 220 guias para enterramentos, 85 enterramentos, 345 atestados de óbitos[iii]. Como se percebe pelo volume dos serviços prestados, foi fundamental a sua organização, e aponta no sentido da ampliação da competência do que se entendia por Saúde Pública.
[ii] O artigo 23, da lei n.º 672, de 10 de novembro de 1914, autorizou ao Governo revisar todos os Regulamentos das Repartições Públicas. [iii] Mensagem do Presidente do Estado, Oliveira Valadão, à Assembléia Legislativa, em 07 de setembro de 1918.
Escrito por Antonio Samarone às 17h28
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Surdos-Mudos
Educação de Surdos-Mudos no Brasil.
Antonio Samarone de Santana
Academia Sergipana de Medicina.
O Imperial Instituto de surdos-mudos foi fundado em 26 de setembro de 1857, através da Lei 939, tendo como primeiro diretor o educador francês Eduard Huet. O Instituto, criado sob o patrocínio do Imperador Pedro II, denomina-se atualmente Instituto Nacional de Educação de Surdos - INES. Huet nasceu em Paris, França, no ano de 1822. Aos doze anos ficou surdo em conseqüência de sarampo. Embora já falasse francês, alemão e português, após tornar-se surdo, aprendeu espanhol. Pertencia à nobreza, era Conde.
Entre 1862 e 1868 o Instituto foi dirigido pelo professor Manoel de Magalhães Couto, habilitado pelo Instituto de Surdos de Paris. Entretanto, a gestão de Magalhães foi um fracasso e o Instituto Brasileiro se transformou num depósito asilar.
O médico sergipano Tobias Rabello Leite foi o terceiro Diretor do Instituto Imperial dos Surdos-Mudos por 28 anos, entre 1868 e 1896. Com vários trabalhos publicados sobre educação dos surdos-mudos, é considerado como um dos introdutores dessa modalidade de pedagogia no Brasil.
Tobias Rabello Leite. (1827 – 1896). Nasceu em Laranjeiras no dia 06 de abril de 1827, filho do Capitão Tobias Rabelo Leite, proprietário do engenho São Bento, neto do velho Capitão-Mor de Itabaiana, José Mateus da Graça Leite Sampaio. Iniciou o curso de medicina na Bahia e concluiu no Rio de Janeiro em 1849, aos 22 anos. Foi interno da Santa Casa de Misericórdia, onde em 1848 observou o primeiro caso de febre amarela no Rio de janeiro. Foi Deputado por Sergipe na Assembléia Geral (1857 – 1860). Durante a grande epidemia de cólera de 1855, o doutor Tobias se apresentou voluntariamente para prestar o seu serviço aos conterrâneos.
O doutor Tobias foi homem de grande talento, de grande saber e probidade exemplar, o principal responsável pela educação dos surdos no Brasil.
O medico sergipano Tobias Rabello Leite foi quem consolidou o ensino de surdos no Brasil. Escreveu “noticias do Instituto de surdos-mudos”, “Noções da Língua Portuguesa” (para surdos-mudos), “Regimento Interno” dos surdos-mudos, “Contos Morais” para surdos-mudos, “Lições de Metrologia” Salva Guarda do surdo-mudo, Ensaio da pré-história da literatura clássica alemã. Tobias faleceu no Rio de janeiro em 03 de agosto de 1896, aos 69 anos.
Escrito por Antonio Samarone às 10h58
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Uma História
A História da Medicina do Dr. Henrique Batista.
Antonio Samarone de Santana.
Academia Sergipana de Medicina.
Durante uma rotineira aula da disciplina “Saúde e Sociedade” do curso de medicina da UFS, resolvi ressaltar a extraordinária erudição médica do Dr. Nestor Piva. Para minha decepção, nenhum dos meus alunos tinha qualquer informação sobre o grande professor, vice-reitor, secretário da educação e presidente do sindicato dos médicos Nestor Piva. Nunca ouviram falar do grande médico que tinha falecido há pouco meses.
É neste quadro de uma sociedade desmemoriada, onde todos acham que estão começando tudo, que aparece a recente “história da medicina” publicada pelo Dr. Henrique Batista. Como é do estilo pessoal do autor, um livro sóbrio, cuidadoso, bem escrito e rico em informações sobre os passos da medicina em Sergipe.
O Dr. Henrique acerta na periodização adotada: a medicina foi dividida em três fases; uma pré-científica, anterior ao surgimento do hospital de Cirurgia; outra de amadurecimento e consolidação, situada entre o Cirurgia e a criação da Faculdade de Medicina, vista como o apogeu desse desenvolvimento; e uma última, onde a medicina em Sergipe ombreá-se com o melhor da medicina ocidental. Uma tese defensável.
O livro nos oferece ainda algumas informações preciosas: quando da unificação do INSS (1966), a previdência social oferecia ao seu reduzido quadro de segurados uma cobertura Assistencial significativa. O INSS possuía em seus quadros mais de cem médicos, e o mais importante, os melhores e mais preparados. Uma pena que esse serviço não se estendia ao conjunto da população, era somente para os segurados da Previdência, ou seja, para os trabalhadores urbanos com carteira assinada.
O trabalho do Dr. Henrique nos conta como foram criadas e de que forma evoluíram as principais instituições hospitalares em Sergipe, analisa o surgimento de nossas organizações associativas, recupera parte de nossa memória sobre a medicina previdenciária e aviva nossa mente para os principais atores desse processo. O surgimento da Faculdade de Medicina ganha o principal capítulo.
Se não bastasse, disponibiliza um vasto acervo fotográfico como a preciosidade da primeira aula inaugural do curso de medicina no Instituto Histórico, e uma imperdível foto sobre uma aula de anatomia, ministrada pelo professor Silvano Isquerdo Laguna, adjunto da Universidade de Salamanca.
É evidente que o cuidadoso e bem escrito livro do Dr. Henrique não é ponto de chegada da história da medicina em Sergipe, ao contrário, o esforço do professor deve servir de estímulo para que outros pesquisadores aprofundem e ampliem essa tarefa. Espero que a iniciativa em foco estimule as entidades médicas, as associações de especialidades, a própria Academia de Medicina, para apressarem o passo na preservação de nossa memória. O trabalho nos aponta uma tarefa imediata: alguém precisa recuperar a brilhante contribuição do Dr. Antonio Garcia Filho, para a medicina, ou melhor, para a sociedade sergipana.
Parabéns professor, sua missão foi cumprida.
Escrito por Antonio Samarone às 06h45
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Hospital São José
Hospital de São José.
Antonio Samarone de Santana
Academia Sergipana de Medicina.
As Irmãs Protássia Waltering (Enfermeira), Leonice Furtado Serra (Assistente Social) e Maria do Socorro Amaral Jesus constituíram uma nova comunidade religiosa (1963), subordinada ao Convento do Carmo em São Cristóvão, e tendo como superiora a Irmã Prudência Nascimento Soares. Reabriram o Ambulatório da Fundação Manoel Cruz, que existia na Avenida João Ribeiro desde 1941, mas estava fechado, e começaram a trabalhar. As Irmãs conseguiram a colaboração de dois médicos: Dr. Álvaro Santana e Ademar Reis, que prestavam seus serviços gratuitamente.
A fundação Manoel Cruz precisava de gente para colocar em funcionamento seus serviços de saúde e as Irmãs estavam desalojadas.
O Arcebispo de Aracaju, Dom José Vicente Távora, doou a Congregação Nossa Senhora da Conceição um prédio da Fundação Manoel Cruz e um amplo terreno, onde rapidamente a Irmandade construiu sua clausura, inaugurada em 1964. Com a chegada da Irmã Elisabeth Hochstrat, setembro de 1965, iniciou-se a construção do Hospital de São José, adaptando-se as instalações existentes da Fundação Manoel Cruz.
A maior parte das despesas para a construção do hospital de São José, cerca de dois terços, foram custeadas com recursos da filantropia alemã: a “Miserior” e a “adveniat”, instituições voltadas para o combate a fome e a miséria, doaram inicialmente cento e setenta e seis mil marcos. Houve também recursos de voluntários holandeses e belgas. Além da ajuda externa, as Irmãs também receberam ajuda do então Governador do Estado, Sebastião Celso de Carvalho, do Dr. Manoel Conde Sobral, do Banco do Brasil, da ENERGIPE, e até de alguns médicos, como foi a destacada ajuda do Dr. Lourival Bomfim.
O Hospital de São José, tendo como diretora a competente Irmã e enfermeira Protásia, foi inaugurado em 18 de março de 1967, dia de São José, com grande festa e missa de ação de graça. A fita simbólica foi cortada pelo representante do Governador, Dr. Cabral Machado e pelo Arcebispo Dom José Vicente Távora. O Hospital começou a receber os primeiros pacientes para internamento, cerca de 50 leitos, em setembro do mesmo ano. Foi um Hospital destinado a atender a pobreza de Sergipe. Passou-se a aceitar pensionista (particular) somente para ajudar o custeio dos indigentes. Todo médico que atendesse um paciente particular no hospital era obrigado a tender um paciente pobre.
O hospital inicia seus trabalhos com o quadro de pessoal composto de cinco Irmãs enfermeiras, uma assistente social, três técnicos de Raios X, um radiologista, dez médicos no ambulatório, uma analista, quatro auxiliares, além dos serventes. A Diretoria do Hospital estava sob os cuidados das Irmãs Protásia Waltering e Elisabeth; e a direção clínica a cargo do Dr. Tarcisio Carneiro Leão.
Entre os médicos que inicialmente fizeram parte do corpo clínico do hospital e que aceitarão atender um paciente pobre gratuitamente, por todo o paciente particular que internasse, citamos: os doutores Tarcisio Carneiro Leão, Francisco Rollemberg, Geraldo Prado Mesquita, Álvaro Santana, Raimundo Almeida, Lucilo Costa Pinto, Fernando Felizola, Adelmar Reis; e as doutoras Wilma Soares e Maridélia Guedes.
No dia 29 de setembro de 1967 foi realizada a primeira cirurgia no Hospital São José. No dia 07 de novembro do mesmo ano, Irmã Leonice Furtado inicia o serviço de Assistência Social no ambulatório do Hospital.
No dia de Pentecostes de 1969 o hospital inaugura com uma grande solenidade festiva e com a presença de muitas autoridades o Pavilhão do Eletro-encefalograma. Foi considerado não somente um avanço tecnológico importante para a Medicina em Sergipe, mas também uma importante fonte de renda para o Hospital. Foi o primeiro “Eletroencefalógrafo de Sergipe”.
PS: A Irmã Antonia Christina Waltering (Protásia), filha de Hubert Waltering e Ana Waltering, nasceu na Alemanha a 21 de julho de 1920 e faleceu em Aracaju a 29 de março de 1998. Foram 48 anos de dedicação e bons serviços prestados a população mais carente de Aracaju. Protásia, Juntamente com a Irmã Elisabeth Hochstrat, foram às últimas alemãs da Irmandade enviadas para o Brasil. Desembarcaram em Salvador em 1950, seguindo imediatamente para Aracaju.
Protásia Waltering, por ser enfermeira, foi imediatamente trabalhar no Hospital de Cirurgia, atuando com competência em diversos setores do hospital. Dado a sua reconhecida capacitação técnica, Irmã Protásia passou a ser a enfermeira particular do Dr. Augusto Leite.
Escrito por Antonio Samarone às 04h08
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A Cegueira em Sergipe
A Cegueira em Sergipe.
Antonio Samarone de Santana
Academia Sergipana de Letras.
O Dr. José Rodrigues Bastos Coelho, médico sergipano, organizador do nosso Departamento de Saúde Pública, no primeiro Governo de Augusto Maynard (1930 – 1935), nos informa em seu ensaio “Coisas e Vultos de Aracaju” que, de acordo com o senso de 1940, Sergipe possuía 1.347 cegos, numa população de 542.320 habitantes. Isso dava uma incidência de 248,4 cegos por cem mil habitantes, taxa das mais altas do Mundo.
A oftalmologia engatinhava em Sergipe. Mesmo sendo uma das primeiras especialidades da medicina, as cátedras de oftalmologia foram instaladas nas duas faculdades brasileiras desde 1883. Entretanto, na prática, o trabalho do “oculista”, foi um dos espaços mais desejado dos charlatões.
Entre as doenças oculares mais freqüentes em Sergipe até a primeira metade do século XX, preponderavam o “Terçol” (pequenos furúnculos nas pálpebras); “Sapiranga” ou “Sapigoga” (blefaroconjuntivite com perda das pestanas); as “Conjuntivites”; “Oftalmia Purulenta (Tracoma); “Névoas Brancas” (catarata); “Arcus Senilis” (endurecimento da córnea pelo excesso de claridade); “Cegueira Noturna” (hemeralopia, decorrente da avitaminose “A”); “Gota-Serena” (amaurose, perda da visão sem lesão aparente, tratada com a guabiraba). É importante distinguir a Gota-Serena da Gota-Coral (nome dado a epilepsia) e da gota (podogra – artrite gotosa, uma forma grave de reumatismo).
Entre as devoções populares uma das santas mais adoradas era Santa Luzia, a protetora das vistas. Era comum em Sergipe que no dia da Santa (13 de dezembro, mas se comemora todo o dia 13), aproveitadores andassem de porta em porta, com a imagem ou gravura da Santa na mão, pedindo esmola para a mesma. Pouca gente tinha coragem de negar essa tão pequena dádiva em troca de tão grande proteção.
“ORAÇÃO - Santa Luzia, consagrada a Deus com voto de castidade, enfrentastes com fortaleza quem tentava violar este voto. Não aceitastes de forma alguma adorar falsos deuses e, por isso, fostes martirizada. Alcançai-me de Deus a firmeza em meus bons propósitos. Protegei-me contra todo mal dos olhos. (Se você estiver com algum problema nos olhos diga qual é e peça ajuda). Fazei que eu use da minha vista, somente para olhar o mundo e as pessoas com caridade e otimismo. Pela vossa poderosa intercessão, alcançai-me a força de superar qualquer contrariedade, principalmente, a que estou passando agora (dizer qual é a sua contrariedade), mantendo viva minha fé em Jesus Cristo, nosso único Senhor. Ele que vive e reina com o Pai e o Espírito Santo, por todos os séculos e séculos. Amém.”
Entre os tratamentos para doenças oculares encontramos “suco de cansanção”, “sumo de umbaúba”.
Escrito por Antonio Samarone às 13h02
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A Lepra em Sergipe.
A Lepra em Sergipe (apontamentos).
Antonio Samarone de Santana.
Academia sergipana de Medicina.
A primeira referência sobre a lepra em Sergipe encontra-se na obra “A Morféia no Brasil (1882)”, do ilustre leprologista sergipano, *Dr. José Lourenço de Magalhães: “Raríssimos são os casos de lepra em Sergipe, existem alguns casos isolados em Estância e em Itabaiana”. Em 1933 oito casos foram identificados; em 1934, oitenta e nove doentes e em 1937, o número de casos notificados já tinha ultrapassado aos duzentos.
Com a elevação do número de casos, a lepra, desconhecida em Sergipe nos três primeiros séculos da colonização, tornou-se um problema de Saúde Pública a partir das primeiras décadas do século XX.
Em 19 de janeiro de 1939, através do Decreto nº 167, era criado o Serviço de Profilaxia da Lepra”, vinculado ao Departamento Estadual de Saúde Pública, curiosamente, anterior a criação do Serviço Nacional da Lepra.
Em 1938, veio a Sergipe o importante leprologista Dr. José Fonseca Guaraná de Barros, com a incumbência de efetuar um diagnóstico da lepra em Sergipe. Em 1943, estavam devidamente fichados e sendo acompanhados pelo Serviço de Profilaxia, 72 doentes. O Dr. Fonseca permaneceu no Estado até o ano de 1944, tornando-se o primeiro Diretor do Serviço de Profilaxia, sendo o principal responsável por sua organização e pela iniciativa da criação da Colônia Jardim, depois denominada Colônia Lourenço de Magalhães. A colônia somente foi inaugurada em 19 de abril de 1945, com 18 pacientes internados.
Entre os anos de 1938 e 1943, enquanto permaneceu por aqui o Dr. Fonseca, foram cadastrados no Serviço de Profilaxia 73 doentes, 216 comunicantes.
Em maio de 1944, assumiu a direção do Serviço de Profilaxia da Lepra em Sergipe o Dr. Fraga Lima. Uma das primeiras providências do novo Diretor foi convidar o médico Armando Ponde, do serviço Nacional da Lepra, para realizar um novo censo sobre a situação da lepra no Estado. O censo ocorreu entre setembro de 1945 e junho de 1946. De forma resumida, encontrou-se o seguinte resultado: Simão Dias, 74 doentes; Aracaju, 32 casos; Maroim, 06 casos; São Cristóvão, 05 casos e Itabaiana, 03 casos.
JOSÉ LOURENÇO DE MAGALHÃES: nasceu em Estância-SE (11/9/1831) e faleceu em SP (23/11/1905) aos 74 anos. Filho de Romão Lourenço de Magalhães e Antônia Isabel Fernandes, formou-se na BA (15/4/1856) com a tese “Como reconheceremos que o cadáver, que se nos apresenta, pertence a um indivíduo que morreu afogado?”. Deputado estadual (1862-67), membro da Academia Nacional de Medicina. Trabalhou como oftalmologista em Estância, Laranjeiras, Salvador, RJ e SP.
Escrito por Antonio Samarone às 20h23
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O Regulamento Sanitário de 1892.
O Regulamento Sanitário de 1892.
Antonio Samarone de Santana
Academia Sergipana de Medicina.
Com a República, o Serviço Sanitário do Estado de Sergipe foi desligado da Administração Federal através do Decreto 682, de 21/11/1891. A nossa primeira Constituição Estadual (aprovada em 18 de maio de 1892), desencadeou um processo de estruturação jurídica do novo aparelho público estadual, agora independente do Poder Central. Na área da saúde, no Governo José Calazans, foi criado o cargo de “Inspetor de Higiene” (lei nº 15, de 29/07/1892), a quem caberia também a responsabilidade de ser o médico da enfermaria de polícia e da casa de prisão. O cargo de Inspetor de Higiene é equivalente aos atuais Secretários de Saúde. O primeiro Inspetor de Higiene nomeado no período Republicano, ainda em 1892, foi o Doutor Felino Martins Fontes Carvalho.
Logo a seguir, em 30/11/1892, através do decreto nº 38, foi aprovado o primeiro “Regulamento Sanitário do Estado”, que organizou o serviço sanitário do Estado de Sergipe, criando a Inspetoria de Higiene (formada pelo Inspetor de Higiene e por Delegados de Higiene para cada município), e dando outras providências. A legislação sanitária anterior, ao nível das Províncias, resumiam-se aos “códigos municipais de posturas”.
Esse Regulamento torna a notificação da cólera, febre amarela, peste, sarampo, escarlatina, varíola e difteria obrigatórias. A vacinação de varíola torna-se obrigatória até os seis primeiros meses de vida e facultativa aos 10 anos.
O citado Regulamento desliga totalmente o serviço sanitário de Sergipe da Administração Federal, conseqüência da nova visão federativa imposta pela Constituição Republicana de 1891. É um Regulamento com 71 artigos, que entre outros pontos, trata da vigilância sanitária, da fiscalização da medicina, farmácia, obstetrícia e arte dentária; da fiscalização das fábricas, no que elas pudessem atingir às populações vizinhas. No setor da vigilância epidemiológica, define a febre amarela, cólera, peste, sarampo, escarlatina, varíola e difteria como doenças de notificação compulsória. A tuberculose continua de fora. O Inspetor de Higiene para o Estado e os Delegados de Higiene para os municípios, são as autoridades máximas da Saúde Pública, de livre nomeação do Presidente do Estado.
A Inspetoria de Higiene em Sergipe, como vimos acima, foi criada logo no início do período Republicano (1892). Contudo, durante muito tempo, o seu funcionamento não correspondia às necessidades sanitárias do Estado. A estrutura básica da citada repartição era composta, em seu início, exclusivamente do Inspetor, que ainda acumulava as atribuições de médico da casa de prisão e da enfermaria militar.
Somente em 16/11/1895, com lei nº 171, a estrutura da Inspetoria se amplia com a criação do cargo de “encarregado do lazareto e desinfectador”, com os vencimentos anuais de 780$000 para onde foi nomeado o enfermeiro Canuto Severino de Araújo, um grande baluarte no combate à varíola no Estado.
Em 18/02/1896, através do decreto 214, a estrutura da Inspetoria ganha um amanuense, com o vencimento anual de 1:000$000. O primeiro cidadão nomeado para ocupar esse cargo foi o senhor Alfredo Alves de Oliveira.
Escrito por Antonio Samarone às 12h49
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A Peste das Bexigas em Sergipe (1911)
A Peste das Bexigas em Sergipe (1911).
Antonio Samarone de Santana.
Academia Sergipana de Medicina.
A varíola apareceu de forma epidêmica em Laranjeiras (povoado Cedro) e Estância, Itaporanga. Itabaiana, São Cristóvão e Aracaju no inicio de 1911. A Peste foi mais grave em Laranjeiras.
Os jornais estamparam propaganda convocando a população para a vacinação. A Linfa de Jenner era gratuita, mas a resistência da população continuava acentuada. Como forma de estímulo à vacinação, amedrontavam-se as pessoas com a ameaça de morte iminente, com o horror dos Lazaretos de Isolamento e dos Postos de Observação.
“Aqui em Aracaju, onde os recursos são fáceis, e onde tem sede a Inspetoria de Higiene, tudo é fácil e remediável; lá por esses municípios do interior, onde tudo é difícil, onde o transporte de tudo é demorado e penoso, é que se faz mister o auxílio dos poderes, é que urge a desinfecção que impeça, e a vacina que neutraliza a varíola”...
“A moléstia toma um caráter sério, e as providências precisam ser mais sérias do que ela, ainda, porque o micróbio da Peste é conduzido pelos próprios que se escapam dos lugares devastados”.
“Correio de Aracaju”, edição de 30 de agosto de 1911.
Laranjeiras foi o município mais atingido. Entre os meses de agosto e setembro de 1911, segundo o Dr. José Moreira Magalhães, no Lazareto Porto do Outeiro foram internados 208 contagiados e no Lazareto Bemvindo cento e onze. Isso aponta para uma incidência bastante acentuada. Até 15 de novembro passaram pelos Lazaretos de Laranjeiras 747 variolosos, dos quais 299 faleceram. Isso significa uma assombrosa letalidade de mais de quarenta por cento. Atuaram em Laranjeiras durante a epidemia os doutores Antonio Militão de Bragança, Josaphat Brandão.
Em Própria, dentro da cidade, foram diagnosticados mais de 800 casos de varíola, com 151 óbitos. A letalidade foi baixa para os padrões de época, em torno de 40 a 50%. A situação em Própria só não foi mais grave graças a intervenção do Dr. Serapião de Aguiar Melo, que rapidamente colocou em prática a seguinte intervenção sanitária: a) rigorosa limpeza de toda a cidade, inclusive casas e quintais; b) vacinação e revacinação do povo; c) construção de lazaretos para a remoção de todos os doentes, sem distinção de classes; d) desinfecção das casas infectadas e queima das que não pudessem ser desinfectadas. Em pouco tempo a epidemia deixou Própria.
Em Aracaju, Julho de 1911, os lazaretos da rua de Lagarto e o do povoado Aloque estavam superlotados. A situação era grave em todo o Estado.
Em Estância, de julho a outubro, cerca de 66 variolosos passaram pelos Lazaretos, com apenas 6 óbitos. Esse fato sugere uma atenção médica de melhor qualidade, sob os cuidados do Dr. Jessé Fontes. Nos Lazaretos de Itabaiana deram entrada cerca de 80 doentes, dos quais 21 vieram a falecer.
O Inspetor de Higiene, Dr. Barros Pimentel, enfrentava o problema com dificuldade. Entre a medidas mais drásticas, mandou queimar um barraco de palha na Avenida Barão de Maroim, depois de que na localidade morreu um varioloso.
No inicio de 1912, depois de ampla devastação, a epidemia estava controlada em Sergipe.
Escrito por Antonio Samarone às 08h14
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O Hospital de Santa Izabel
O Hospital S. Izabel
Dr. Petrônio Andrade Gomes
Academia Sergipana de Medicina.
O Hospital S. Izabel supprimeo serviço de alta cirurgia “E dispensa os facultativos que compunham o corpo de operadores”. Com essa manchete garrafal estampada em sua 1ª página, o jornal “Diário da Manhã” (fundado em 1909, sendo o órgão oficial do Partido Republicano Conservador de Sergipe) assustaria a população aracajuana naquela manhã de sábado (escrevia-se ‘sabbado’), dia 9 de outubro de 1926. Coube ao Presidente da Associação Aracajuana de Beneficência, Sr. Amynthas Jorge comunicar em ofício ao Dr. Augusto Leite a extinção dos serviços de cirurgia daquele hospital, o qual transcrevo, respeitando a grafia da época. Exmo. Snr. Dr. Augusto Leite: ”O Conselho Administrativo da Associação Aracajuana de Beneficência convencido da imperiosa necessidade de supprimir o serviço de auta (?) cirurgia, até aqui, tão proficientemente zelado e executado por vossa abalisada competência technica, resolve tornar effectiva esta medida. E dando vos sciencia desta sua deliberação cumpro ainda a incumbência que me foi delegada pelo mesmo, de vos fazer chegar o grande pesar que o facto a todos motiva uma vez que não se pode escurecer o quanto sois credor de considerações pelos relevantes serviços ahi prestados o que concorreu poderosamente para o renome daquella pia instituição. Mandou-me mais que vos comunicasse ainda, ter também sido resolvido ficasse aquella casa de caridade com todos os seus utensílios ao dispor de vossas determinações profissionaes attinentes a especialidade que abraçastes, o que em si demonstra quanto de considerações lhe mereceis”. Cumprindo, pois, aquellas auctorisações, às quaes me associo conscientemente, devo renovar em meu nome, o alto empenho que todos mantemos de tel-o sempre como seu benemérito e insubstituível protector. Saúde e fraternidade. – Amynthas Jorge.” Um tanto quanto enigmático, o ofício acima, escrito por vezes de maneira telegráfica. Cabe, após leitura atenta, algumas perguntas: Qual “necessidade imperiosa” foi essa? Qual a participação efetiva do Dr. Augusto Leite nessa decisão firme do Conselho? Qual o mal que Dr. Augusto Leite fizera ao insigne hospital? Quem fazia parte desse Conselho? Por que tanta questão de deixar o material cirúrgico com o fim a ser determinado pelo ínclito cirurgião? Terá sido por ciúme do novíssimo Hospital Cirurgia, poucos meses antes inaugurado? Cabe ao Dr. Augusto Leite responder a muitas destas indagações, como veremos em breve.
Escrito por Antonio Samarone às 07h32
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Pronto Socorro de Aracaju
O Pronto Socorro de Aracaju
Antonio Samarone de Santana
Academia Sergipana de Medicina
Durante o Governo de Oliveira Valadão (1914 - 1918) teremos duas mudanças importantes na Repartição de Higiene. Primeiro, a sua transformação, em 30 de dezembro de 1915, de Inspetoria em “Diretoria de Higiene e Saúde Pública”, pelo decreto nº 618, e a devida aprovação de um novo regulamento. Segundo, a transferência, em 21 de maio de 1916, dos “Serviços de Assistência Pública” (atuais Prontos Socorros) do âmbito da Diretoria de Segurança para a Diretoria de Higiene e Saúde Pública. O novo serviço de Assistência Pública teve sua regulamentação aprovada pelo decreto nº 645, de 11/01/1917.
Na verdade, o Serviço de Assistência Pública era um similar dos atuais Prontos Socorros, que, por razões hoje incompreendidas, estava a cargo do Setor Policial, inclusive, era a única repartição que possuía uma ambulância para o transporte de doentes. De acordo com o novo regulamento, competia à Assistência Pública:
a) prestar socorros médicos e cirúrgicos de urgência nas vias públicas, em todos os casos de ferimentos, asfixia, envenenamento ou estados mórbidos súbitos;
b) prestar socorros médicos e cirúrgicos aos doentes da população pobre, inclusive às parturientes e aos loucos, remetendo-os para os hospitais, maternidades ou asilos, quando não se possa tratar em domicilio;
c) promover o enterramento dos indigentes depois da verificação do respectivo óbito.
O Regulamento previa a cobrança dos serviços de quem pudesse pagá-los.
Na estruturação do novo serviço de assistência, o Governo criou em 09 de novembro de 1917, o “Posto de Assistência Pública”, que, embora subordinado à Diretoria de Higiene e Saúde Pública, possuía direção e pessoal próprios. Para o Cargo de Diretor da Assistência foi nomeado o prestigiado médico Dr. Francisco de Barros Pimentel, que permanecerá no cargo até seu falecimento, quando então será substituído, em 30 de abril de 1922, pelo Dr. José Thomaz de Ávila Nabuco.
No seu primeiro ano de funcionamento, o Serviço de Assistência Pública adquiriu uma ambulância para o transporte dos doentes e um carro funerário (rabecão), ambos puxados a cavalos. O serviço de transporte de doentes da Assistência Pública passou a ter tanta importância nas décadas seguintes em Sergipe, que até bem pouco tempo, a população ainda chamava ambulância de “assistência”, confundindo o veículo para o transporte com a repartição.
A Assistência Pública atendeu, de janeiro a agosto de 1918, os seguintes casos: 60 pessoas socorridas nas vias públicas, 166 pessoas transportadas para o hospital, 33 curativos, 59 receitas, 220 guias para enterramentos, 85 enterramentos, 345 atestados de óbitos. Como se percebe pelo volume dos serviços prestados, foi fundamental a sua organização, e aponta no sentido da ampliação da competência do que se entendia por Saúde Pública.
Escrito por Antonio Samarone às 06h24
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Sociedade de Medicina de 1910.
A Sociedade de Medicina de 1910.
Antonio Samarone de Santana
Academia Sergipana de Medicina
A primeira entidade classista organizada por trabalhadores em Sergipe foi “Centro Operário Sergipano”, fundado em 11/12/1910; portanto, posterior a Sociedade de Medicina, e os primeiros Sindicatos só foram constituídos após a Revolução de 1930. Dentro dessas limitações, a tentativa dos médicos de organizarem uma entidade de Classes merece destaque, no mínimo, pelo seu pioneirismo.
Em 21 de agosto de 1910, o jornal “Correio de Aracaju” publica notícia elogiando a classe médica sergipana pela brilhante iniciativa de fundar uma “Sociedade de Medicina” em nosso Estado. Certamente foi essa uma das primeiras iniciativas de organização de uma categoria profissional específica. É significativo o cuidado dos médicos, a categoria mais forte naquele momento, em não se deixar de fora da organização os farmacêuticos e os cirurgiões dentista, consideradas profissões anexas. O próprio nome “Sociedade de Medicina”, e não sociedade de médicos, revela essa preocupação.
Os objetivos da nova entidade seriam os de lutar pelos interesses das classes, aprofundar nas questões clínicas de todos os ramos da medicina e no campo da higiene pública e particular.
Em 08 de setembro de 1910 ocorreu à primeira tentativa de reunião visando à fundação da Sociedade, discussão dos seus estatutos e do seu programa. A reunião ocorreu na sala de redação do Jornal Correio de Aracaju, ao meio dia, onde compareceu um número bastante reduzido de profissionais. Estavam presentes apenas os Médicos Augusto Leite, Helvécio Andrade, Pimentel Franco, Aristide Fontes, Cândido Costapinto e Manuel Marsilac; e os Farmacêuticos Xavier do Monte e Francisco Travassos. Nenhum Cirurgião dentista compareceu. Devido à falta de quorum, uma nova reunião foi marcada para o dia 14 de setembro, ao meio-dia, inicialmente para a residência do Dr. Augusto Leite e depois transferida para a sede da Associação Comercial.
Finalmente, a 14 de setembro de 1910, ocorreu a esperada reunião de Fundação da Sociedade de Medicina de Sergipe, presidida pelo Presidente do Estado, Dr. Rodrigues Dória, e secretariada pelos Drs. Augusto Leite e Helvécio Andrade. Após a fundação foram escolhidos os médicos Rodrigues Dória, como presidente honorário e Daniel Dantas, como presidente efetivo. Foi também nomeada uma comissão composta pelos dois secretários presentes, mais o médico Pimentel Franco para a elaboração dos estatutos. Compareceram ao ato de fundação, além dos médicos já citados, Moreira Magalhães, Berílio Leite, Francisco Mello, Aristide Fontes, Manuel Marsilac e o Farmacêutico Francisco Travassos; e se fizeram representar os Médicos Sylvio Leite e Militão de Bragança; além dos Farmacêuticos Aurélio Vieira, Agrícola Fonseca, Ezequiel Almeida e Virgilio Vianna.
Em 15 de outubro de 1910, na sede da Associação comercial, ocorreu a 2º reunião da recém criada Sociedade de Medicina para a apresentação e aprovação dos estatutos. Aberta a sessão, presidida pelo ilustre Presidente do Estado, Dr. Rodrigues Dória, seguiu-se a uma detalhada leitura dos estatutos, inspirados em outros de associações congêneres, o que foi aprovado por unanimidade.
Enquanto durou, setembro de 1911, A Sociedade de Medicina de Sergipe, abriu caminhos para o fortalecimentos dos médicos em Sergipe.
Escrito por Antonio Samarone às 22h53
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A Organização Social dos Médicos em Sergipe I.
A Organização Social dos Médicos em Sergipe I.
Antonio Samarone de Santana
Academia sergipana de Medicina
No final da primeira década republicana, os médicos em Sergipe já esboçavam os primeiros passos em sua organização corporativa. Em 15 de outubro de 1910 foi fundada a “Sociedade de Medicina de Sergipe” e os seus estatutos publicados no jornal “O Estado de Sergipe”, em 16 de outubro do mesmo ano. A instalação da Sociedade ocorreu sete dias após a fundação, numa grande festa realizada num dos salões do Palácio do Governo.
Era uma entidade de pretensões científicas que abrangia além dos médicos, os farmacêuticos e dentistas; centravam-se nas discussões e estudos dos casos clínicos. Em maio de 1911 a Sociedade Publicou a primeira Revista Médica de Sergipe, sob a coordenação dos Drs. Francisco Fonseca, Augusto Leite e Helvécio Andrade; do Farmacêutico Francisco Travassos e do Cirurgião Dentista Magalhães Carneiro.
No editorial, a corporação médica deixava claro sua visão sobre os problemas enfrentados pelos médicos naquele momento:
“A Revista Médica vem preencher uma lacuna imensa; abrir caminho a mais larga confraternização das classes médicas e anexas; fornecer meios a defesa de direitos esquecidos ou mal interpretados; qual o da liberdade profissional, que não pode dispensar a habilitação legal; meios de repressão aos que se desviarem da linha do dever, pela censura e pela repulsa, meios de correção dos viços de educação, pela discussão e pelo esclarecimento de nossas autoridades; meios de estudos pela observação clínica verbal ou escrita, com o que lucrarão todos – médicos e clientes”.
“Unamo-nos na mesma comunhão de idéias, no mesmo sentimento de fraternidade, sejamos um por todos, que havemos de triunfar no conceito público, tangendo bem para longe esse tempo de anarquia médica e farmacêutica, em quem não sabemos bem quem manda e quem obedece”.
A primeira diretoria desta Sociedade foi composta pelo Dr. Daniel Campos como Presidente; Helvécio Andrade, 1.o Secretário; Augusto Leite, 2.o Secretário e Pimentel Franco, Tesoureiro. Entretanto, essa primeira Sociedade de Medicina de Sergipe teve vida curta. Com pouco mais de um ano de fundada, ou mais precisamente em 24 de setembro de 1911, encontramos uma pequena nota no Jornal “Correio de Aracaju”, com os seguintes esclarecimentos sobre sua dissolução:
“O ilustre Dr. Pimentel Franco participou-nos que de acordo com seus colegas de diretoria, Dr. Daniel Campos e Helvécio Andrade e outros, estava dissolvida essa Sociedade, e que estando em poder do primeiro a quantia de 194$000 réis pertencentes à mesma, resolveram distribuí-lo pelos hospitais Santa Isabel desta Capital e da cidade de Laranjeiras.”
Apesar desse contratempo, a importância dos médicos continua crescente nesse período. Mesmo tendo sido frustrada a sua primeira tentativa de organizar-se formalmente numa entidade, a corporação, liderada pelo influente Augusto César Leite, passa a ser ouvida e, algumas vezes, atendida sobre os diversos aspectos da saúde pública em Sergipe.
Escrito por Antonio Samarone às 07h00
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A Organização Social dos Médicos em Sergipe II.
A Organização Social dos Médicos em Sergipe II.
Antonio Samarone de Santana
Academia sergipana de Medicina
Uma segunda tentativa de organização dos médicos em Sergipe surge com a criação da “Sociedade de Medicina e Cirurgia de Sergipe”, em 14 de julho de 1919. A segunda Sociedade teve como seu primeiro Presidente o Dr. Francisco Fonseca, e como 1.o Secretário, o Dr. Eronides de Carvalho. Entre os objetivos da recém-criada instituição encontrava-se o zelo pelos interesses da classe médica e pelo conforto dos que lutam contra a doença. A luta contra o “charlatanismo” aparecia como uma das principais bandeiras da entidade.
A Sociedade já nasce forte. O Dr. Eronides Ferreira Carvalho , por ocasião do 2o aniversário da Sociedade, em solenidade bastante concorrida, onde estavam presentes, entre as autoridades, o Governador do Estado e o Bispo Diocesano, alerta em seu discurso:
“Faço um apelo às autoridades sanitárias, para estas abram luta sem tréguas, contra o charlatanismo barato que tenta invadir o nosso querido Sergipe.”
A Sociedade de Medicina e Cirurgia de Sergipe representou importante força política no final da década de 1920 e terá papel decisivo na definição das políticas de saúde no Governo Graccho Cardoso, sobretudo na construção do Hospital de Cirurgia. Nesse momento, estava na Presidência da entidade o Dr. Augusto Leite, que consegue reunir sob sua liderança quase a totalidade dos médicos de Sergipe.
Entretanto, essa segunda tentativa, apesar de mais duradoura do que a primeira, também não teve continuidade.
Finalmente, em 27/06/1937, a classe médica sergipana reunida em Assembléia Geral, no Centro Dom Vital, situado na rua João Pessoa, deliberou pela fundação da atual “Sociedade Médica de Sergipe”. A sessão foi presidida pelo Dr. Octaviano de Melo e secretariada pelos doutores Lourival Bomfim e Lacerda Filho. O Dr. Garcia Moreno foi o principal orador da solenidade, justificando e esclarecendo os presentes sobre os motivos para a fundação da Sociedade. A proposta foi colocada em votação e aprovada por unanimidade. O Dr. Octaviano Melo foi designado Presidente interino da Sociedade Médica até a aprovação dos estatutos, e conseqüente eleição e posse da primeira diretoria.
Em seguida, foi escolhida uma comissão composta pelos doutores Garcia Moreno, Juliano Simões, Benjamin de Carvalho, Lacerda Filho, Simeão Sobral e Lourival Bomfim para elaborarem os estatutos da nova entidade. No dia 22 de agosto de 1937 ocorreu a Assembléia Geral para aprovação dos Estatutos da Sociedade Médica de Sergipe.
Em 31 de outubro de 1937, domingo às 20 horas, no salão nobre da Biblioteca Pública, tomou posse à primeira diretoria da recém criada “Sociedade Médica de Sergipe”, assim constituída: como Presidente Dr. Augusto César Leite; Vice-presidente, Dr. Oscar Freire; 1º Secretário, Dr. Juliano Calazans Simões, 2º Secretário, José Machado de Souza; Orador, Dr. João Garcia Moreno; Tesoureiro, Dr. Josafá Brandão; Bibliotecário arquivista, Dr. Joaquim Fraga Lima. Compuseram o Conselho Fiscal os doutores Benjamin Carvalho, João Firpo Filho e Lourival Bomfim.
A Sociedade Médica iniciou sua atuação em alto estilo. Imediatamente, no dia 17 de novembro de 1937, aconteceu a sua primeira sessão científica. O Dr. José Machado de Souza apresentou uma comunicação sobre um caso de “Paralisia de Parrot”, etiologia atribuída pelo orador aos “germes da sífilis”, o Dr. Lourival Bomfim fez uma conferencia sobre a “etiologia bacteriana da tuberculose” e o Dr. Garcia Moreno falou sobre “regimes alimentares em pacientes febris”. Comunicações de grande proveito para toda a corporação médica no Estado.
Continua.
Escrito por Antonio Samarone às 06h59
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A Peste Levantina II
A Peste Levantina II.
Antonio Samarone de Santana.
Academia Sergipana de Medicina.
A Saúde Pública determinou também que se desinfectassem com enxofre todas as mercadorias e objetos que saíssem da Capital, mesmo sabendo do risco de danificá-las. Para atender a essa determinação foi construída na Inspetoria de Higiene uma estufa para funcionar com gás sulfuroso ou formol, mais dois salões no centro comercial e mais outro no Jardim Baiano, onde se podem proceder ao expurgo das mercadorias.
O Mercado, velho edifício, carcomida e ameaçadora habitação de ratos, fora completamente evacuado; o Beco do Açúcar (atual dos cocos), também sofreu evacuação e os proprietários ali instalados intimados a reformarem seus estabelecimentos. O Beco era considerado um verdadeiro cortiço incrustado no centro da cidade, feio e imundo, a atentar contra a saúde pública e aos foros de civilização necessários a uma Capital.
O Mercado, que era propriedade da “Associação Aracajuana de Beneficência”, que administrava o Hospital de Santa Isabel - presidida na época pelo Major Serafim Moreira - somente foi reaberto após passar por uma ampla reforma higiênica, com pintura, mudança do teto, inclusive com a construção de oito latrinas para a serventia pública, até então inexistentes.
Diante do pavor decorrente da ameaça da Peste decretou-se um verdadeiro “estado de sítio” sanitário. A polícia se desdobrou para cumprir as determinações da Saúde Pública. Em menos de 30 dias cerca 500 pessoas já tinham conseguido o tal “Passaporte Sanitário”, sem o qual o direito de ir e vir estava banido. Não ficam claro quais os critérios usados para a emissão do citado “Passaporte”, quais os aspectos de sanidade deveriam ser observados, etc. Uma pista está no fato de que até o amanuense da Repartição Sanitária, senhor José Alencar Cardoso, estava autorizado a emitir e assinar tal documento.
É evidente que medidas tão duras, “justificadas” pelo medo da Peste, tiveram forte resistência por parte da sociedade. Como os conhecimentos ainda eram muito precários era mais prudente errar-se pelo exagero do que pela omissão, discursava os defensores das medidas. Entretanto, com essas medidas, mesmo consideradas exageradas, a Peste foi rapidamente controlada, não causando mais os estragos de épocas passadas. A medicina já dispunha de alguns instrumentos eficazes no combate a algumas moléstias. A Peste Bubônica começava a ser domada.
No dia 12 de setembro, Dr. Theodoreto envia um curioso oficio ao Chefe de Polícia: “solicito uma patrulha, mesmo de pouco homens, destinada a evitar a defecação que se faz publicamente, na zona compreendida da frente do Hotel Brasil e a Alfândega”.
A Saúde Pública registrou também o recebimento de amostras de um “sabão de creolina”, fabricado especificamente para ajudar nas medidas profiláticas do combate a Peste. A fedida invenção não somente foi aprovada como bastante elogiada, pois era resultado da criatividade de uma saboaria local, de propriedade da senhora Arlinda A. Espinheira.
Quanto ao tratamento empregado nos casos de Peste Bubônica usou-se a aplicação, via hipodérmica, do soro anti-pestoso em altas doses, com excelentes resultados. O soro também foi usado, preventivamente, em pessoas expostas ao risco, que tiveram algum tipo de contato com áreas suspeitas.
A Peste Bubônica, também chamada de Febre do Caroço, Febre do Rato, Íngua de Frio, Peste Levantina começava com febre intensa, calafrio, dores de cabeça, mal-estar, apatia, prostração e no segundo dia aparecia o “bulbão”, que era a reação dos gânglios satélites. O povo acreditava que enquanto o bulbão não fosse sarjado o risco era iminente. Com a descoberta das sulfas e depois dos antibióticos, basicamente a estreptomicina, a cura deixou de ser problema.
Escrito por Antonio Samarone às 22h07
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A Peste Levantina I
A Peste Levantina I.
Antonio Samarone de Santana.
Academia Sergipana de Medicina.
No jornal “O Estado de Sergipe” edição de 28 de agosto de 1903, o Inspetor da Higiene Pública, Dr. Theodoreto Arcanjo do Nascimento, alertava para o exagero das notícias que circulavam na cidade de que estava acontecendo uma elevada mortandade dos ratos e o aparecimento dos primeiros casos de Peste Bubônica em Aracaju. Diz o Diretor: “não é tão fácil concluir da simples observação clínica de dois ou três casos, o diagnóstico da Peste”. Sergipe não possuía recursos laboratoriais para realizar a prova biológica desse diagnóstico.
Mesmo desmentindo a existência de Peste na Capital, a Inspetoria avisou ter recebido vacina anti pestosa do Instituto Soroterápico Federal, e que a vacinação estava ocorrendo diariamente de uma as duas da tarde.
Os casos continuaram aparecendo e Inspetor de Higiene do Estado, Dr. Theodoreto Nascimento, cedeu as evidências e convocou uma reunião, em sua residência, dos médicos atuantes em Aracaju. Compareceram os Drs. Manoel de Marsilac, José Moreira de Magalhães, Cândido Costa Pinto, José de Souza Ponde (Inspetor de Saúde dos Portos), Manoel Nobre (auxiliar da Inspetoria) e José Francisco da Silva Melo; deixaram de comparecer, mesmo tendo sido convidados, os Drs. João Telles de Menezes (médico militar), Álvaro Telles de Menezes e Daniel Campos. Nessa conferência foi decidido por unanimidade que estavam diante da suspeita da ocorrência da Peste Bubônica. Esse é o primeiro registro de Peste Bubônica em Sergipe.
As medidas sanitárias tomadas para se evitar a propagação da doença foras as seguintes: Isolamento dos pacientes (em número de doze) no lazareto existente; imediatos expurgos de suas casas, que também foram interditadas e guardadas por agentes da Força Pública; tentativa de vacinação; desinfecção – com o pulverizador Geneste - de todas as casas onde ocorreu mortandade de ratos; asseio pessoal, domiciliar e das ruas; desinfecção do Palácio, Alfândega, Quartel, Tesouro, Justiça Federal, Cadeia e demais edifícios públicos; imediata limpeza do cais e das embarcações pequenas. Os Delegados de Higiene do Interior foram todos colocados de “sobre aviso”, isto é, alertados para uma possível epidemia.
“O cais, as ruas, o interior das casas, os quintais, tem sido continuadamente limpos, procedendo-se por toda à parte a remoção e incineração do lixo, de maneira que se pode afirmar, jamais se viu tão limpa a nossa modesta Capital”. (Theodoreto Nascimento, no Jornal “O Estado de Sergipe”, edição de 13/09/1903).
Diante de mais uma ameaça de epidemia, assim se manifestou o Presidente do Estado, o Farmacêutico Josino Menezes, em mensagem a Assembléia Legislativa no dia 07 de setembro de 1903: “O nosso Estado acha-se na desagradável contingência de não poder resistir à invasão de qualquer epidemia, tão fácil de ser importada, quanto de se desenvolver entre nós, como prenunciam infecções gravíssimas já observadas em nossa Capital”.
Já em setembro de 1903, O Inspetor de Higiene solicitou ao Presidente do Estado que determinasse ao doutor Chefe de Policia para que proibisse as pessoas de deixarem Aracaju sem serem devidamente examinados e emitidos os “Passaportes Sanitários”.
Solicitou-se também um auxílio em dinheiro para as pessoas removidas para o Lazareto, por não poderem prover seu sustento com trabalhos externos e que se proibisse os sepultamentos em nossos cemitérios sem o respectivo atestado de óbito. O Lazareto era dirigido pelo enfermeiro Canuto Severino de Araújo.
Esse texto continua...
Escrito por Antonio Samarone às 22h06
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